Adoção de animais e adoção de crianças
Alguns dias atrás, eu soube de mais um caso em que alguém se recusou a responder o questionário de adoção de animais (enviado por qualquer protetor cuidadoso para todo pretendente à adoção de um animalzinho) com a clássica justificativa de que ‘não se trata da adoção de uma criança’. E achei que seria bom falar um pouco sobre isto.
É plenamente justificável a preocupação das autoridades com quem vai adotar uma criança. Afinal, até esta criança ter condições de se sustentar, serão vários anos de gastos com habitação, comida, estudo, vestuário, saúde e tudo mais que um ser humano precisa. Sem contar, é claro, todo o carinho, amor e bons exemplos que ela deverá receber para não se tornar um adulto problemático. Acontece que crianças uma hora começam a falar. E, a menos que estejam num cárcere privado, vão à escola, têm amiguinhos, professores, vizinhos – pessoas que podem perceber se há algo errado, se há algum tipo de abuso. Também é improvável o abandono de uma criança por quem a adotou. Por fim, crianças um dia crescem – tornam-se adultas, tornam-se independentes.
Um animal, assim como uma criança, também gera gastos: com medicamentos e consultas médico-veterinárias, com alimentação, com higiene, com brinquedos, eventualmente com roupas. Claro, não precisa de uma ‘escola’, mas às vezes precisa ficar hospedado num hotelzinho, precisa de alguém que passeie com ele. Também necessita de carinho, de atenção, de cuidados. Só que o animal, ao contrário de uma criança, não cresce, não se torna independente; fica eternamente criança. Uma criança que não pode explicar o que lhe fizeram, como a maltrataram, onde morava antes de ser abandonada. Uma criança que muita gente não tem o menor pudor em abandonar na primeira dificuldade, mesmo que esta dificuldade seja uma viagem de férias na qual o bichinho não pode ir junto! Que muita gente abandona porque chora (late ou mia) demais, porque estragou um sofá, porque arranhou ou mordeu alguém que certamente lhe deu motivos para isto. É uma criança que se pode facilmente trancafiar dentro de um canilzinho ou quartinho fétido, imundo, com pouca ou nenhuma comida, com água suja. Ou cujos ‘pais’ não se importam se sai para a rua e morre atropelada, envenenada, maltratada. Para estas pessoas, o animal é um brinquedo, é um sistema de alarme ‘barato’, é um companheirinho que pode ser trocado por ‘algo melhor’ que apareça, como um noivo, uma namorada. É um objeto que pode ser jogado fora no momento em que se enjoou dele.
Tanto crianças como animais são seres vivos e, como tais, merecem respeito e uma vida digna. Ambos sentem fome, frio, dor, solidão, tristeza, medo. Ambos são indefesos e podem ser – e são – vítimas das mais atrozes crueldades. E por isso o cuidado tomado por quem doa é justificável, e muito, em ambos os casos – das crianças e dos animais.
A adoção de um bichinho é um compromisso para muito, muito tempo – 10, 15 anos. Às vezes, até mais. Durante este período muita coisa pode acontecer com qualquer um de nós. Podemos perder o emprego, mudar de casa, separar do(a) companheiro(a), encontrar um novo amor, ficar sem dinheiro, ir para outra cidade ou país. Mas o animalzinho continua o mesmo - aquela criancinha dependente e que, à medida que envelhece, precisa de nós cada vez mais. Por isso, o questionário é necessário. Ele não é uma invasão de privacidade. Ele é um instrumento que serve para esclarecer o adotante de tudo que a adoção envolve e que ajuda o doador a verificar se o dito adotante está preparado para o tamanho do passo e do compromisso que quer assumir. Quem não quer respondê-lo com justificativas como a que gerou este artigo, não está preparado para cuidar de nenhum ser vivo.
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3 respostas para “ Adoção de animais e adoção de crianças ”
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Muito bom, muito bom mesmo!
:D
Meu, todo mundo devia ler isso!
Traduz exatamente o q.eu penso.
São indefesos pro resto da vida! Por isso me comovem
parabéns deinha! Isso só podia vir de vc mesmo!
Já escutei muito isso, infelizmente. Não é qualquer ser humano que está preparado e merece cuidar de um animal, é muito difícil encontrar um adotante responsável. Só quero acrescentar, no rol dos seres vivos, as plantas, me doi muito cada vez que encontro uma árvore mutilada, maltratada, em sofrimento, como a maioria que vemos .