Sobre os gatos
O que significa, para você, amar os animais?
Muita gente diria que significa dar uma vida maravilhosa ao seu próprio ‘pet’. Outros diriam que significa respeitar todos os animais, sem distinção de raça, tamanho, cor, idade. Outros iriam além: é dar segurança, é defender, é salvar os que precisam.
Todas as alternativas acima estão certas, e provavelmente há outras além da que eu mesma vou colocar aqui: para mim, amar os animais significa também colocar-se no lugar deles e tentar ver a vida como eles mesmos a vêem, sem idéias pré-concebidas e, o principal, sem a lógica humana - que na maioria das vezes atrapalha até mesmo os próprios humanos.
Parece-me muita arrogância acreditar que nós, humanos, sabemos sempre o que é melhor para tudo que está à nossa volta, incluindo os animais. Afinal, cada pessoa tem seus próprios parâmetros de conforto, de felicidade, de lar, de segurança - que podem variar até de país para país, de cultura para cultura. E se nem nós estamos de acordo nisto, como podemos ditar regras para outros seres? Será que nossos conceitos servem também para os animais? Eu digo que não… nem sempre. Principalmente quando se fala de felinos. Aliás, é por isto que criei o Bicho no Parque.
Por algum motivo, os gatos sempre foram considerados ‘pequenos cachorros’. Antigos livros dos cursos de Medicina Veterinária voltados a pequenos animais eram dedicados basicamente aos cães, e os gatos entravam literalmente no apêndice. Nada mais incorreto. Esta visão está mudando - tanto que hoje há profissionais que cuidam exclusivamente de felinos, algo impensável há alguns anos - mas, mesmo assim, muita gente ainda teima em querer comparar as duas espécies e, o pior, dar-lhes o mesmo tratamento.
O cachorro é, desde tempos imemoriais, dependente do homem. O gato, não - ele manteve sua independência, seu espírito livre. E alguns felinos são simplesmente indomesticáveis. E é isso que as pessoas não compreendem. Achar que todo e qualquer gato prefere um sofá ou colo quentinho a uma grama úmida e à liberdade é simplificar as coisas, é pensar em termos humanos e não felinos - afinal, NÓS preferimos este tipo de conforto.
O Rambo, no parque, era um doce, carinhoso. Assim como a Menina, o Tigrão, a Meg Ryan, a Neve e vários outros. Ao serem tirados de seu lar, seu habitat, mudaram seu comportamento, que variava do depressivo ao furioso. Mas, ao voltarem ao parque (no caso da Menina, do Tigrão e da Meg Ryan), retornaram também ao comportamento dócil anterior. A Neve foi adotada, mas por uma pessoa que a respeita e sabe que ela não é um gato de colo. Mesmo assim, ela continua bastante arredia com estranhos.
No final de 2002, tiramos do parque os primeiros gatos para castrar. A Menina, o Mausi e a Branquinha ficaram por uma semana em minha casa para se recuperarem da cirurgia. O Mausi, na época com uns 5 a 6 meses, logo se soltou - tanto que acabou sendo adotado por nós. A Branquinha ficou arredia. E a Menina, furiosa e intocável. Colocá-la na caixa de transporte para devolver ao parque foi quase impossível. Chegando lá, ainda presa, ela começou a miar - tinha percebido onde estávamos. A caixinha de transporte foi colocada no chão, a porta aberta; ela saiu e começou a se esfregar em minhas pernas, ronronar, aceitar carinho. Estava em casa.
Alguns anos depois foi feita uma tentativa de adoção dela e do Tigrão, juntos - como são muito unidos, é impossível separá-los. O Tigrão quase destelhou a casa e miava o tempo inteiro, a Menina ficou o tempo inteiro escondida. Esse comportamento não mudou em mais de uma semana. Devolvidos ao parque, ficaram novamente sociáveis. Eles continuam para adoção - estão velhinhos, e nós, apegados a eles, gostaríamos - dentro da nossa visão humana de mundo - que eles tivessem um final de vida mais tranqüilo. Mas o que será que ELES querem?
É por isso que eu pergunto: é justo colocar todos os felinos ditos domésticos dentro de um mesmo saco e considerar que merecem a morte aqueles que não aceitam e não se encaixam nos nossos parâmetros do que é bom? É correto sacrificá-los por não ’servirem’ para companhia, por serem bravos, medrosos ou por simplesmente se defenderem do homem que os acua? Não seria melhor respeitar as diferenças e permitir, como já é feito em países de primeiro mundo, que os gatos ferais tenham direito à vida no lugar que eles consideram como sua casa?
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Em tempo…
Na 5ª feira, 31/01, o Nelson e a Simone tiraram do parque uma gatinha jovem, de menos de um ano, peluda e já castrada, que havia sido abandonada algumas semanas antes. No mesmo dia ela recebeu as vacinas, foi fotografada e encaminhada para nosso LT. Está lá, permanecendo isolada dos demais quando não há ninguém. Seu nome é Jasmin.
Na 6ª feira apareceu uma gata adulta, branca, peluda, de olhos bem azuis e vesguinha. A Graça encontrou uma pessoa para hospedá-la durante o Carnaval, mas logo depois ela será levada à clínica para exames, castração e vacinas.
Teresa está ótima. Quase não há vestígios da lesão em seu olho direito; é alegre, espoleta e, bem, temperamental
. Por causa do Carnaval, foi encaminhada ontem (sábado, 02/02) para nosso LT… onde divide um quarto com a Jasmin.
O Rambo está bem. Aparentemente a infecção era mesmo por causa das feridas e do abcesso que uma dessas feridas virou. Também foi levado para nosso LT devido ao Carnaval, mas permanece dentro de uma jaulinha. É um gato fácil de tratar, porém está extremamente acuado, com medo, infeliz mesmo. Um animal indoável, que considera o parque seu lar e a liberdade, seu modo de vida. Por isso, depois de ser castrado e vacinado, é para lá que ele vai voltar.
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Uma resposta para “ Sobre os gatos ”
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Concordo plenamente com você. Há animais ariscos porque foram maltratados e que ficam dóceis quando se reconciliam com os seres humanos. E há os que, por temperamento, preferem a vida em liberdade, na medida em que isso é possível em uma cidade. Sempre me pergunto por que os pássaros podem viver em liberdade e não os gatos. Quanto aos cães até existe o argumento que tendem a formar matilhas, e podem se tornar perigosos, mas os gatos?
Um grande abraço,
Silvana